Uma breve história da Ciência do Aprendizado

Uma breve história da Ciência do Aprendizado

Baseado no artigo: A brief History of the Science of Learning por Tracey Tokuhama-Espinosa ( A brief history of the science of learning – part 1 e part 2)

A noção de que aprendemos através dos nossos sentidos vem de longe… Mais precisamente por volta de 1000 dC quando o sábio, filósofo e matemático Alhazen, lançou os fundamentos da construção do conhecimento. Foi ele que identificou a qualidade humana de comparar informações para detectar padrões e novidades. Dessa forma, dizia ele, baseamos o novo aprendizado em associações anteriormente aprendidas, ou seja, o novo apoia-se no antigo e assim sedimentamos o conhecimento.

No final do século XVII, John Locke seguiu a trilha aberta por Descartes, contribuindo com as ideias sobre auto-regulação e metacognição ao sugerir que os alunos aprendem mais ao monitorar e refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem.

Baseado em vários gigantes da ciência, Donald Hebb, em 1949, fincou as bases neurocientíficas do aprendizado ao cunhar o que ficou conhecido como a regra hebbiniana da sinapse: “neurônios que disparam em conjunto, permanecem conectados”.

Paralelamente ao trabalho laboratorial de Hebb, Piaget conduzia com rigor científico suas observações do desenvolvimento da criança, o que o levou a cunhar as 04 fases do desenvolvimento infantil que, com alguns ajustes, encontram ressonância no desenvolvimento neuronal do cérebro de fato.

Outra grande contribuição que permanece e tem sido corroborada pelas contribuições das neurociências é a importância do meio e da interação social. Essa ideia, trazida por Vygotsky, durante a 1ª. metade do século XX, perdura.

De um discípulo de Vygotsky, Luria, recebemos o início da grande investigação sobre a memória, que como o aprendizado, constitui-se em função cerebral de alta complexidade que envolve um grande número de sinapses e a capacidade neuronal de adaptar-se e remodelar-se frente a novos estímulos. A própria noção de plasticidade neuronal remonta à essa capacidade do cérebro de se modificar.

Outro ponto focal para o entendimento de como aprendemos tem raiz na hipótese do filtro afetivo, postulada por Stephen Krashen, que tem sido sustentada por estudos de neuroimagem da amígdala. Esses estudos demonstraram o impacto das emoções na tomada de decisão; uma das funções executivas que sustentam o aprendizado.

Para que a Neuroeducação faça sentido e seja efetivamente praticada na sala de aula, os mestres da ciência da educação, ou seja, os professores, tem que embarcar no processo de descoberta, familiarização, prática e aprendizado sobre o cérebro; do contrário, seria como pedir a uma costureira que faça um vestido sem conhecer os contornos de um corpo humano Parafraseando a comparação originalmente feita por Leslie Hart em 1983).

Da mesma forma, pensar que algo tão complexo como a inteligência possa ser representado por um número de 2 a 3 dígitos é algo com o qual nenhuma mente humana pode se contentar… por isso a teoria das múltiplas inteligências de Howard Gardner encontrou ambiente favorável no final do século XX.

Essa época marcou a transição, na psicologia, na forma de entender o aprendizado: de modelos comportamentais (behavioristas) passou-se para modelos baseados em evidências de atividades cerebrais (cognitivistas) e de construção do conhecimento (construtivistas). Essa nova conceptualização trouxe uma visão mais complexa e conectada e postulou uma integração sofisticada de várias redes neuronais em oposição à visão simplista e reinante até então de áreas únicas destinadas a determinadas funções cerebrais. Com isso, as ciências sociais passaram a ter uma abordagem mais científica e comprobatória (hard) em nos empírica e condicionante (soft).

Por volta do final da década de 80 tivemos o nascimento da Neurociência com campo verdadeiramente transdisciplinar, o que possibilitou aos educadores de plantão encontrar informações e ter conhecimentos de fontes cientificamente comprovadas. No âmbito sócio-político, essa nova ciência encontrou guarida, em solo norte americano, em uma mudança de foco: da equidade passou-se à excelência, o que permitiu que mais esforços se concentrassem em conhecer como o cérebro funciona ao invés de legislar sobre como a educação seria feita.

Na década seguinte (1990-1999), também conhecida por ‘década do cérebro’, tivemos o início de dois tipos de teoria do aprendizado: a modular ou de especificidade de domínio; que explica os intricados mecanismos de funções específicas; e a global, que busca formas de entendimento mais amplas sobre como o cérebro funciona.

Mas, uma coisa é teoria e outra é a prática: o que começou com a melhor das intenções acabou por insuflar um grande debate, majoritariamente concentrado nos EUA, sobre o que realmente fazia sentido na sala de aula. Lados opostos surgiram e muito foi discutido, o que acabou por sedimentar em bases mais sólidas e democráticas as contribuições da Neurociência para o fazer pedagógico. Daí nasceu na Neuroeducação ou MBE (Mind, Brain and Education), movimento que elevou e canalizou vários esforços para que o diálogo com a sala de aula fosse mais efetivo. EM 2010, esse campo encontrava-se estabelecido.

Atualmente tenta-se alcançar um meio-termo entre a ciência advinda do laboratório e a arte gerada na prática. Talvez possamos celebrar, em um futuro pouco distante, o encontro e o ponto de equilíbrio entre ambos.

 

Mirela Ramacciotti

 

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